28 fevereiro 2008

OFENSA

Eu boto minha mão no fogo!
A
expressão popular, que remonta à idéia de arriscar-se à fogueira em defesa da inocência alheia, está perdendo significância.

O flanelinha da praça avisou: “A coisa anda tão feia doutor, que nem por si mesmo neguinho arrisca a pele!”.
Pois é... o que temos assistido – ao vivo e a cores – é a perda total de referenciais públicos de ética e honradez.

Dia desses, conversando sobre a iniciação dos jovens à vida adulta, lembramos que em quase todas as tradições os rituais de passagem eram guiados pelos mais velhos e sábios de cada comunidade.
Então, pensemos rápido: Quem são os sábios de hoje?

Nos primórdios da democracia, o senado era destinado aos luminares da nação; aqueles com clarividência para os momentos difíceis e as questões menos simples. Os religiosos de todos os tempos desde pajés e magos, passando por sacerdotes das mais diversas doutrinas, representaram um norte para as civilizações.

Já houve um tempo – acreditem meninos – que chamar alguém de deputado era saudação elogiosa; o jovem que abraçava a vida religiosa era motivo de orgulho para a família, e obtinha atestado vitalício de boa índole, lucidez e sobriedade.

Num momento crucial para a humanidade, o que podemos dizer desses antigos referenciais e das mais recentes celebridades? [Sem falar nos big brothers, claro!]. Ontem, brincando com um amigo disse que seus cabelos brancos lhe davam um ar de senador. Ele, também brincando – mas não muito –, disse que eu “não precisava ofender...”.

A grande mídia nos ensina: os homens e mulheres notórios deste tempo estão mais interessados em desfilar vaidades, ou digladiar-se por projeção social e dinheiro, do que em servir de farol para quem quer que seja.

Diante dessa carência generalizada de maturidade, não é de se admirar que a garotada queira ficar longe, pelo maior tempo possível, do chamado mundo adulto – então, temos “adolescentes” com mais de trinta anos aos montes por aí. E não nos enganemos, achando que é apenas uma circunstância econômica ou mero comodismo. A verdade é que
ser “gente grande” não é mais tão atrativo...

Um amigo médico me passou esta “ficha”: como as pessoas não estão conseguindo se interiorizar e encontrar um sentido para as próprias vidas, acabam lotando os consultórios e laboratórios em busca de exames – cada vez mais sofisticados –, para então, de alguma forma, verem-se por dentro...

É tragicômico sim, mas certamente não é brincadeira.

Eu acho mesmo que é por aí – e só por aí – a saída para a ratoeira planetária em que nos enfiamos: ou cada indivíduo trata de se conscientizar e crescer de verdade – e não falamos de usar anabolizantes na academia – ou, como naquele filme do ratinho Roddy, iremos todos, literalmente, “por água abaixo...”.

03 fevereiro 2008

CINZAS

Teu lugar no meu braço
Estaria ainda quente,
Se o tomasses
Naquele instante

E rodaríamos pelas avenidas,
Riríamos muito e nos olharíamos
Em gestos nossos
Simples e suficientes

Feito um filme que recomeça,
Após um lapso em que a luz se acende,
Seguiríamos felizes
Como se tudo tivesse acontecido